Além dos algoritmos: como a experimentação em data science molda o futuro da IA

A inteligência artificial muda as regras do jogo, exigindo ciclos iterativos e testes constantes. Não basta escrever código: é preciso treinar e ajustar modelos, lidando com dados, vieses e custos computacionais. Tudo isso enquanto buscamos resultados mais precisos e responsáveis.

pessoa trabalhando
3 de abr. de 202517 min de leitura
Atualizado em 10 de ago. de 2026

A inteligência artificial está em todo lugar; foi tão longe que hoje até temos vasos sanitários inteligentes. Falando sério, desde os assistentes de voz nos nossos celulares, passando pelos anúncios que nos fazem achar que estão nos escutando, até os algoritmos que recomendam séries na Netflix, a IA se tornou uma peça chave em múltiplas indústrias. Empresas de saúde a usam para diagnosticar doenças, os bancos para detectar fraudes, e até o entretenimento foi transformado com ferramentas de IA capazes de gerar música, arte e conteúdo em questão de segundos.

Apesar de ter conquistado tanto espaço nas nossas vidas, tem algo que diferencia o desenvolvimento da IA de qualquer outra tecnologia: ela não é construída da mesma forma que o software tradicional. No desenvolvimento de software clássico, os engenheiros programam regras claras e previsíveis; já a IA não se baseia em regras fixas, e sim em aprendizado. Em vez de dizer exatamente o que um sistema deve fazer, os modelos de IA aprendem padrões a partir de grandes volumes de dados, e como o aprendizado nunca é perfeito na primeira tentativa, o processo de desenvolvimento não é linear, e sim um ciclo de tentativa, erro e ajuste constante.

É aqui que entra em jogo a experimentação em ciência de dados. Construir um modelo de IA não é simplesmente escrever código e rodar, e sim testar diferentes algoritmos, ajustar parâmetros, treinar modelos com diferentes conjuntos de dados e medir seu desempenho até encontrar a melhor versão possível. A IA é, em essência, um campo impulsionado pela experimentação contínua.

Por que a IA não segue um processo de desenvolvimento tradicional?

Se você parar para pensar em como o software tradicional é desenvolvido, o processo é bem estruturado: uma equipe de programadores define os requisitos, escreve código com regras claras, testa o sistema e o implementa. Se algo não funciona, revisa o código, corrige e pronto. É um modelo bem previsível, baseado em regras que as pessoas controlam diretamente.

Agora, quando falamos de inteligência artificial, a história muda completamente. Aqui não se trata de programar regras, e sim de treinar modelos para que aprendam sozinhos. Em vez de dizer a um sistema o que fazer passo a passo, os cientistas de dados fornecem enormes volumes de informação e o ajustam até que comece a gerar resultados úteis. E esse processo é cheio de incerteza, tentativa e erro.

Quadro sobre o desenvolvimento de software tradicional vs o desenvolvimento da IA

A IA não é “programada”, é treinada

A maior mudança de mentalidade aqui é que a IA não é programada no sentido tradicional, e sim “treinada”. Imagine que é como ensinar uma criança a reconhecer animais. Você não dá uma lista de regras detalhadas sobre como diferenciar um cachorro de um gato; em vez disso, mostra várias imagens até que ela começe a perceber os padrões sozinha. O mesmo acontece com a IA: você dá um monte de dados (imagens, textos, sons etc.), e o modelo aprende a identificar padrões a partir deles.

Fica ligado nisso porque aqui está a chave: esse aprendizado nunca é perfeito na primeira tentativa. Diferente de um programa convencional, em que, uma vez que você escreve o código corretamente, o sistema funciona como esperado, na IA é preciso fazer ajustes constantes. Os modelos podem ficar sobretreinados, enviesados ou até gerar resultados inesperados, o que significa que o processo nunca é definitivo.

Quadro que mostra a diferença entre o ciclo de vida do desenvolvimento de software e o ciclo de vida do desenvolvimento da IA

O papel da experimentação na IA

Se tem algo que define o desenvolvimento da inteligência artificial, é a experimentação constante. Diferente do software tradicional, em que, uma vez que o código está bem escrito, o sistema simplesmente funciona, na IA não há garantia de que um modelo vai render bem desde a primeira tentativa. Aqui, o processo se parece mais com o método científico do que com a engenharia clássica: você formula uma hipótese, testa, ajusta e repete até obter os melhores resultados.

A IA é um experimento em evolução constante

Para que um modelo de IA funcione bem, não basta escolher um algoritmo e rodá-lo. Há muitas variáveis que podem afetar seu desempenho, e cada uma exige ajustes finos:

  1. Hiperparâmetros: são os valores que controlam como o modelo aprende. Ajustá-los é como afinar um instrumento musical: se estiverem mal calibrados, o modelo pode aprender demais (overfitting) ou de menos (underfitting).
  2. Arquitetura do modelo: em redes neurais, por exemplo, é preciso decidir quantas camadas e neurônios usar. Mais camadas podem deixar o modelo mais preciso, mas também mais complexo e difícil de treinar.
  3. Volume e qualidade dos dados: não importa quão sofisticado seja um algoritmo se os dados forem ruins. A experimentação em IA não é só sobre modelos, mas também sobre como melhorar os dados de treinamento.

O ciclo de experimentação em IA: iteração após iteração

O desenvolvimento de IA não é um processo linear, e sim um ciclo em que cada experimento ajuda a refinar o modelo. Podemos ver isso em seis passos-chave:

1. Entender o problema de negócio: o processo começa definindo as necessidades do negócio, selecionando as fontes de dados adequadas e estabelecendo métricas de sucesso (tanto do lado do negócio quanto da Ciência de Dados). É importante lembrar que os modelos de IA não conseguem garantir uma precisão perfeita, por isso escolher as métricas de avaliação certas é fundamental para medir o desempenho real do modelo.

2. Coleta e análise de dados: nessa etapa, os dados disponíveis são coletados e analisados. Muitas vezes, a análise exploratória de dados (EDA) revela que os dados não têm características relevantes ou padrões sólidos, o que pode obrigar a equipe a repensar as fontes de informação ou até redefinir os objetivos do projeto.

3. Preparação de dados e Feature Engineering: antes de treinar qualquer modelo, os dados precisam ser limpos e transformados. Essa fase é crítica, já que uma preparação de dados malfeita pode condenar o projeto desde o início. A engenharia de atributos (feature engineering) é fundamental para extrair informação valiosa dos dados e melhorar o desempenho do modelo.

4. Modelagem: o desenvolvimento de modelos exige uma abordagem científica: definir um objetivo, explorar opções de forma iterativa e refinar até obter uma solução viável. Os cientistas de dados costumam começar com um modelo básico e um conjunto inicial de atributos, avaliar os resultados e depois experimentar para melhorar o desempenho.

Esse processo pode incluir:

  • Coletar mais dados.
  • Limpar e transformar os dados de outra forma.
  • Criar novos atributos.
  • Testar modelos alternativos.
  • Ajustar hiperparâmetros para otimizar o desempenho.

A modelagem é um processo altamente exploratório, cheio de iterações e caminhos descartados antes de chegar a uma solução ótima.

5. Avaliação: os modelos são testados com dados que ainda não viram. Se o desempenho não atender às expectativas, a equipe volta a iterar sobre os passos anteriores até afinar o modelo e cumprir os critérios de sucesso estabelecidos.

6. Implantação: só depois de testar o modelo com diferentes conjuntos de dados, verificar sua qualidade e estabilidade, e garantir que ele atende aos requisitos de custo, consumo de recursos e tempo de processamento, é possível seguir com a implantação em produção.

Esse processo pode se repetir dezenas, centenas ou até milhares de vezes até encontrar uma combinação ideal. E o mais interessante é que nem sempre existe uma única solução correta. Um modelo pode ser mais preciso, mas mais lento. Outro pode ser mais eficiente, mas menos exato. A experimentação ajuda a encontrar o equilíbrio certo para cada caso de uso.

A chave está nos dados

Quando falamos de inteligência artificial, muitas vezes o foco está nos modelos e algoritmos, mas a verdade é que o verdadeiro protagonista é o dado. Não importa quão avançado seja um modelo de IA: se os dados usados para treiná-lo são ruins, os resultados também serão.

Por isso, a ciência de dados e a experimentação andam juntas. Os cientistas de dados não cuidam só de escolher o melhor algoritmo, mas também trabalham para garantir que a informação usada no treinamento seja precisa, representativa e livre de vieses. Como eles conseguem isso? Por meio de um processo constante de teste, ajuste e otimização. Vamos ver alguns dos passos-chave desse processo.

1. Limpar e preparar os dados: a base de tudo

Antes mesmo de pensar em treinar um modelo, é preciso garantir que os dados sejam confiáveis. No mundo real, os dados raramente vêm perfeitos: podem estar incompletos, ter erros ou ser irrelevantes.

Exemplo: Imagine que você quer treinar uma IA para prever o preço de casas, mas no seu dataset há imóveis com preços negativos ou sem informação sobre a localização. Se esses erros não forem corrigidos, o modelo vai aprender padrões incorretos e dar previsões pouco confiáveis.

A experimentação nessa etapa implica testar diferentes técnicas de limpeza e ver qual funciona melhor. É melhor eliminar os dados incompletos ou tentar preenchê-los? Dá para detectar valores atípicos que afetem a precisão do modelo? Cada decisão nessa fase impacta diretamente o desempenho final.

2. Seleção de atributos (Feature Engineering): escolher os dados que realmente importam

Nem todos os dados são úteis para um modelo de IA. A seleção de atributos (ou feature engineering) consiste em identificar quais variáveis realmente agregam valor e quais só acrescentam ruído.

Exemplo: Vamos continuar com o caso da previsão de preços de casas. É mais relevante a quantidade de banheiros ou a distância até o centro da cidade? O ano de construção influencia mais do que o tamanho do jardim?

Os cientistas de dados experimentam diferentes combinações de variáveis, testando como elas afetam o desempenho do modelo. Às vezes, criar uma nova variável combinando duas já existentes (como “preço por metro quadrado”) pode melhorar bastante os resultados.

3. Avaliação de modelos e detecção de vieses

Depois que os dados estão prontos, começa a fase de treinamento e avaliação do modelo. Mas aqui não se trata só de ver qual modelo tem melhor precisão, e sim também de identificar possíveis vieses nos dados.

Exemplo: Um sistema de IA feito para avaliar candidaturas de emprego pode acabar favorecendo certos grupos em detrimento de outros se o dataset usado no treinamento contiver dados históricos com desigualdades. O pior é que esses vieses podem passar despercebidos até o modelo já estar em produção, amplificando discriminações de forma sistemática.

Por isso, os cientistas de dados experimentam diferentes abordagens para minimizar vieses e garantir que o modelo seja justo e equilibrado. Isso pode envolver balancear os dados, ajustar os pesos das classes ou até aplicar técnicas de explicabilidade para entender melhor como o modelo toma decisões.

Uma pequena mudança nos dados pode alterar tudo

Um dos aspectos mais fascinantes (e desafiadores) da experimentação em ciência de dados é que um pequeno ajuste nos dados pode mudar completamente o desempenho de um modelo.

Exemplo: Em um experimento, uma equipe de pesquisadores descobriu que eliminar apenas 5% dos dados de treinamento (especificamente os casos mais ruidosos) melhorou a precisão do modelo em 15%.

Isso mostra que a chave nem sempre está em usar mais dados, e sim em usar os dados certos. A experimentação em ciência de dados não é um luxo, é uma necessidade.

Desafios da experimentação em IA

Se tem algo que aprendemos até agora, é que a inteligência artificial depende da experimentação constante. Mas experimentar em IA não é tão simples quanto testar e ajustar algumas linhas de código; cada iteração pode trazer novos problemas e obstáculos. Da falta de reprodutibilidade aos altos custos computacionais, há vários desafios que tornam a experimentação em IA um processo mais complexo do que parece.

A seguir, exploramos alguns dos desafios mais importantes e como eles impactam o desenvolvimento de modelos de IA.

1. O problema da reprodutibilidade: quando os resultados não podem ser repetidos

Na ciência, um experimento só é válido se pode ser replicado e chegar aos mesmos resultados. Mas em IA, isso nem sempre é tão simples. Dois treinamentos com os mesmos dados e parâmetros podem gerar resultados diferentes por causa de fatores como a inicialização aleatória dos modelos ou até variações no hardware em que rodam.

Exemplo: Uma equipe de pesquisadores pode treinar um modelo com 92% de precisão, mas quando outra equipe tenta replicá-lo com a mesma configuração, obtém só 88%. Por quê? Pode ser por diferenças na implementação, no ambiente de execução ou em detalhes aparentemente insignificantes, como a versão de uma biblioteca de machine learning.

Soluções:

  • Fixar sementes aleatórias (random seeds) para garantir que os resultados sejam consistentes.
  • Documentar detalhadamente os processos de treinamento.
  • Usar ferramentas como MLflow ou Weights & Biases para rastrear experimentos e comparar resultados.

2. Vieses nos dados e nos modelos: o experimento pode amplificar erros

Um dos maiores riscos na IA é que os modelos aprendem o que veem nos dados de treinamento. Se esses dados têm vieses, o modelo vai refletí-los e até reforçá-los.

Exemplo: Um sistema de IA para avaliar currículos pode acabar favorecendo certos grupos em detrimento de outros se o dataset usado no treinamento contiver dados históricos com desigualdades. O pior é que esses vieses podem passar despercebidos até o modelo já estar em produção, amplificando discriminações de forma sistemática.

Soluções:

  • Analisar e depurar os dados para detectar possíveis vieses antes de treinar o modelo.
  • Aplicar técnicas de debiasing, como reponderar amostras ou gerar dados sintéticos para balancear a informação.
  • Usar ferramentas de explicabilidade em IA (como LIME ou SHAP) para entender melhor como o modelo toma decisões.

3. O alto custo computacional: a IA não é barata

Treinar modelos de IA, principalmente os baseados em redes neurais profundas, exige uma quantidade enorme de recursos computacionais. GPUs, TPUs, armazenamento na nuvem... cada experimento consome energia e dinheiro.

Exemplo: Treinar um único modelo de linguagem avançado (como os que o ChatGPT usa) pode custar milhões de dólares em infraestrutura. Mesmo para modelos menores, o uso de recursos continua sendo um fator limitante para muitas empresas e equipes de pesquisa.

Soluções:

  • Usar técnicas de aprendizado por transferência (Transfer Learning) para reaproveitar modelos pré-treinados em vez de começar do zero.
  • Aplicar técnicas de otimização como quantization e pruning para reduzir o tamanho do modelo sem perder precisão.
  • Usar plataformas na nuvem com acesso a instâncias especializadas para machine learning, em vez de investir em hardware próprio.

4. Tempo e escalabilidade: os experimentos podem levar dias

Treinar um modelo não é instantâneo. Dependendo da complexidade do modelo e do tamanho do dataset, um único experimento pode levar de algumas horas a vários dias ou até semanas. Isso faz da otimização algo essencial para não desperdiçar recursos.

Exemplo: Um modelo de reconhecimento de imagens pode levar 72 horas para ser treinado, e se o resultado não for bom, é preciso ajustar de novo e repetir o processo. Com vários experimentos em paralelo, o tempo pode virar um gargalo.

Soluções:

  • Implementar técnicas de early stopping, que permitem interromper treinamentos quando se detecta que o modelo já não está melhorando.
  • Usar treinamento distribuído, dividindo o trabalho entre várias máquinas para acelerar o processo.
  • Aplicar busca automatizada de hiperparâmetros (AutoML) para encontrar configurações ideais sem precisar de várias tentativas manuais.

A experimentação em IA não é tão simples quanto testar e ver o que acontece. Cada experimento tem desafios técnicos, éticos e logísticos que precisam ser resolvidos para obter modelos precisos, eficientes e responsáveis. Garantir a reprodutibilidade, mitigar vieses, otimizar custos e reduzir tempos de treinamento são tarefas que fazem parte do dia a dia de qualquer equipe que trabalha com inteligência artificial.

No fim das contas, a chave não é só encontrar modelos que funcionem bem, e sim fazer isso de forma eficiente, transparente e responsável. Porque em IA, assim como na ciência, não se trata só de obter resultados, e sim de entender por que funcionam e como melhorá-los.

Como o tema é tão do nosso interesse quanto do de vocês, nos propusemos a ficar um passo à frente, ou pelo menos tentar, e escrevemos um artigo chamado “O futuro da IA e a experimentação: autonomia, desafios éticos e o papel humano” em que mergulhamos de cabeça no assunto. O que você está esperando para clicar? Não vem me dizer que vai ficar com vontade de continuar lendo.

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